Miguel Alves, Piauí – A podridão é palpável. Não é uma metáfora, mas a dura realidade sentida "nas próprias narinas e olhos" pelos bravos caminhantes da FTP na 19ª Marcha da Cidadania, que percorreu municípios de União, Miguel Alves, Porto, Campo Largo, Matias Olímpio e São João do Arraial no Piauí entre 12 e 26 de maio de 2025. A FTP, em parceria com a Transparência Internacional –Brasil, encontrou em Miguel Alves uma ferida aberta que clama por justiça ambiental e social: um lixão a céu aberto, incrustado na zona urbana, vizinho ao bairro Forquilha e perigosamente próximo ao majestoso Rio Parnaíba.
Este não é um problema novo. Há mais de uma década, os moradores de Miguel Alves convivem com o insuportável odor, que se intensifica no verão, invadindo suas casas. As queimadas periódicas, registradas com frequência, lançam ao ar um coquetel tóxico, espalhando doenças e desespero.
No último dia 16 de maio foi realizada inspeção pela 19ª Marcha, acompanhada por ativistas do STTR, SINDSERMO e Comunidade Kolping, repórteres do Profissão Reporter, TV Globo, no lixão. O que foi visto foi um cenário "extremamente desesperador": dejetos acumulados, bens que viraram lixo inerte, animais mortos, e o mais alarmante, uma "lagoa de chorume distante cerca de 4km do Rio Parnaíba", um veneno líquido que, pela lei da gravidade, rasteja lentamente em direção ao leito do rio, ameaçando não só a vida aquática, mas o abastecimento de água de comunidades inteiras.
A gravidade da situação em Miguel Alves é um microcosmo de uma crise global. A cada ano, o mundo gera bilhões de toneladas de resíduos, e grande parte deles acaba em lixões, contaminando solos, águas e o ar. A decomposição do lixo orgânico libera metano, um gás de efeito estufa (GEE) 25 vezes mais potente que o dióxido de carbono (CO2), contribuindo diretamente para as mudanças climáticas. As queimadas, como as de Miguel Alves, liberam partículas finas e gases tóxicos que causam doenças respiratórias, cardiovasculares e até câncer nas populações vizinhas. É um ciclo vicioso de degradação que atinge os mais vulneráveis.
Mas a Marcha da Cidadania não trouxe apenas a denúncia; trouxe a força da mobilização e a semente da esperança. A dor muscular e a pele queimada pelo sol dos 15 dias de caminhada dos ativistas são o testemunho de um novo tempo de ativismo social. A legislação brasileira é clara: a Lei Federal nº 12.305/2010, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), proíbe os lixões e exige a destinação ambientalmente adequada dos resíduos, com responsabilidade compartilhada entre governo, empresas e cidadãos.
É nesse contexto que iniciativas como o programa "Zero Lixões: por um Piauí mais limpo", desenvolvido pelo Ministério Público do Piauí (MPPI) em parceria com o Tribunal de Contas, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh) e outros órgãos, ganham relevância vital.
A FTP vai formalizar relato da situação ao Conselho Municipal de Meio Ambiente de Miguel Alves e ao gestor municipal. Também levará o problema ao Tribunal de Contas do Estado e ao Ministério Público. Assim, estará pavimentando o caminho para que a lei saia do papel e se torne realidade.
Há sinais de que a semente da colaboração já germina. O vereador Jânio Bina, presente na inspeção, já propõe a criação de um "parque ambiental" ou viveiro de plantas no local do lixão, após seu encerramento. Essa visão de transformação, de um espaço de degradação em um oásis de vida, é o que precisamos.
A situação de Miguel Alves, com sua proximidade com o Rio Parnaíba e a enorme concentração humana em seus limites, exige que o programa "Zero Lixões" lhe confira "urgente PRIORIDADE". É imperativo que o Conselho Municipal de Meio Ambiente se mobilize e que os gestores apresentem soluções a curto e médio prazo para estancar essa "chaga que consome o povo, ameaça o rio Parnaíba e o planeta".
A FTP se posiciona como parceira e observadora, mas a mensagem é clara: a solução para o lixão de Miguel Alves, e para os milhares de lixões que ainda persistem pelo Brasil e pelo mundo, reside na união inquebrantável da comunidade e do Estado. É a prova de que, quando a sociedade civil se levanta, quando os órgãos de controle atuam e quando os gestores públicos assumem sua responsabilidade, é possível transformar a realidade mais sombria em um futuro de esperança e saúde.
Miguel Alves pode e deve se tornar um exemplo de como a colaboração local pode enfrentar um problema global. A luta contra os lixões é uma luta pela vida, pelo meio ambiente equilibrado e pelo bem-estar das presentes e futuras gerações. E, como a Marcha da Cidadania nos ensina, "Juntos venceremos!". A esperança não é um luxo, é uma necessidade, e ela está marchando.
Venceremos!