Gorethe (à esquerda) e Teresa (à direita), são duas mulheres inspiradoras que lutam contra a corrupção no Piauí
As duas mulheres desta reportagem lutam contra a corrupção sem medo de fraquejar. Elas trabalham para engajar mais pessoas estimulando a consciência cidadã e inspirando novas lideranças.
A corrupção enfraquece o governo e mina os recursos públicos. É o dinheiro que não chega na merenda escolar, para a construção de uma escola no bairro; para a obra de esgotamento e asfalto – que nunca é concluída -, para o remédio que falta no posto de saúde.
Em 2025, o desempenho do Brasil piorou no ranking implementado pela Transparência Internacional- Brasil, que analisa a percepção da corrupção no setor público. Obtivemos 35 pontos, ocupando a 107ª posição entre 182 países e territórios avaliados.
Fator preponderante entre especialistas, a participação das mulheres no acompanhamento das contas públicas e políticas públicas pode ajudar a mudar esse quadro. Sem dúvida que a força feminina é tão essencial nessa luta, como apresentam Gorete e Teresa.
Maria Gorethe Acelino Oliveira - Caminhar pela mudança
“Quem rouba um tostão, rouba um milhão”, é com esse ditado que ouvia do seu pai que Gorethe Acelino Acelino Oliveira, 66 anos, aprendeu desde cedo sobre corrupção. Ela percorreu a pé mais de 6 mil quilômetros pelo Piauí e o Brasil para lutar por um país livre de corrupção.
Ela é uma das primeiras integrantes a participar da Marcha contra a Corrupção, caminhada organizada pela Força-Tarefa Popular com o objetivo de lutar contra corrupção e conscientizar a população sobre a responsabilidade de cada um no combate aos malfeitos com recursos públicos. “Aos 36 anos se aproximei da ‘Rede de Jovens’, um movimento de juventude em 1997. Foi aí que me encontrei participando e me orgulho do movimento até virar a Marcha”.
Eles param as cidades, vão às prefeituras, câmaras de vereadores, pegam dados orçamentário e fazem a fiscalização pelas ruas e nas obras. “Nosso trabalho é apartidário...Por isso que resolvemos de colocar o pé na estrada e ensinar as pessoas com as aulas de cidadania a fiscalizar as contas públicas, vigiar e para saber onde a verba foi aplicada”, disse.
Muitos descasos e, em alguns casos, os avanços e retrocessos da luta foram vistos. Era comum as Câmaras ficarem fechadas e os governantes não receberem os caminhantes com respeito. “Os vereadores fechavam as Câmaras quando sabiam que íamos chegar. Já teve prefeito dizendo que éramos grupo de vândalos pedindo voto para não nos receber”.
Eles cobram explicações das autoridades. “Vimos muitas crianças com fome, sujas, o povo clamava por socorro sem ter água, moradia digna, isso cortava nosso coração”, rememora Gorethe.
Gorethe nasceu em Chapadinha, no estado vizinho Maranhão e por idas e vindas chegou a morar em Esperantina no Piauí até se debruçar a residir na capital, Teresina. Filha de uma dona de casa e um pai diarista, alcóolatra, Gorethe conheceu cedo a desigualdade. “Éramos oito irmãos do qual eu era quinta filha. Vivíamos em um cômodo, meus pais não tinham condições, minha mãe trabalhou muito e praticamente criou eu e meus oito irmãos sozinha”, contou.
Ela sentiu na pele os dramas familiares ainda na infância, a mãe quase enlouqueceu, a irmã ficou internada por seis meses em hospital psiquiátrico à época. “Minha mãe, que cuidado da gente, chegou a dormir na chuva, debaixo uma árvore com nós todos juntos – pausa para lágrimas-, essa é a parte mais difícil de minha vida”, lembra.
Hoje, a sexagenária lembra que sua vida foi marcada por ser uma mulher forte e inspiradora. Trabalhou, casou, separou-se, virou mãe de quatro filhos e investiu na educação deles. “São meu orgulho de vida. Nunca faltou escolas para meus filhos.”
Assim, viu de perto o impacto da ineficiência do estado para as mulheres, pois elas representam 49,1% das chefes de domicílios brasileiros, segundo IBGE. Em 2026, a Marcha completa 20 anos de existência e percorrerá seis municípios do Norte do Piauí. Para ela ainda não é hora de parar de caminhar, foi categórica: “enquanto eu poder e minhas pernas der eu vou lutar”.
Teresa Cristina Coelho Matos – Mudança pela educação
“Sou de uma família que as mulheres são muito fortes e inspiradoras. Com sete anos de idade meus pais se separaram e ficamos três mulheres- eu, minha mãe e minha irmã. Minha mãe teve que nós sustentar e sempre achou muito importante a educação. Minha vida foi construída nessa relação muito forte com a educação”, analisa a assistente social e Doutora Teresa Cristina Coelho Matos, 65 anos que desde cedo conheceu a desigualdade.
A irmã mais velha, que se formou em odontologia, também foi muito importante em sua trajetória de vida porque sempre a estimulou a estudar. Ela viveu sua infância em Timon, no Maranhão. Cruzava de canoa o rio Parnaíba, que separa os dois estados, para chegar até a escola em Teresina.
“Me vi numa relação de pobreza e comecei a ver a perspectiva de mudança de vida a partir da educação”. Com muita dedicação e esforço, graduou-se em Serviço Social e chegou a trabalhar no Instituto Nacional de Reforma Agrária (INCRA). “Começamos a atuar (década 90), para que as políticas públicas chegassem naquelas comunidades rurais”, conta.
Assim, viu de perto o impacto da ineficiência do estado para à população. “Foi aí que fiz mestrado, depois doutorado incentivada porque me interessava com educação”. Foi assim que ela se aproximou da Força-Tarefa Popular em 2008 pesquisando o trabalho da organização para seu doutorado. Hoje ela é uma aliada da Força-Tarefa.
Desde 2012, ela participa da Marcha contra a Corrupção, caminhada organizada pela Força-Tarefa Popular. Ela também já percorreu mais 400km quilômetros pelo interior do Piauí juntamente com a Organização da sociedade civil, acompanhando as mudanças ou até então, os retrocessos da luta. Hoje, a Marcha já percorreu mais de 4 mil Km.
A Força-Tarefa trabalha com a prevenção e ensina a população a perceber e fiscalizar os recursos públicos. Nessa caminhada com a Marcha contra a Corrupção, Teresa mostra que não é preciso pedir licença para entrar numa prefeitura, acompanhar uma sessão na Câmara dos Vereadores.
Eles cobram explicações das autoridades locais e depois seguem para espaços públicos para o que Teresa define como uma possibilidade de mudança. “Principalmente com a aula de cidadania, em que o grupo ensina a população sobre seus direitos e deveres na luta contra a corrupção, é um suporte, um enfrentamento, a passagem da Força-Tarefa dá esperança.”
Para isso, segue mostrando que a transparência dos gastos públicos e destinação dos impostos é fundamental. “O mais grave é não se dar a destinação adequada dos recursos púbicos para quem de fato precisa deles. Os responsáveis por executarem essas políticas públicas não terem esse cuidado e muitas vezes usarem esses recursos de forma indevida ou para atenderem interesses pessoais, familiares...Outro aspecto é não ter, por parte da sociedade, que eles exerçam seus direitos de fiscalizar e cobrar.”
O Piauí tem 3,3 milhões de habitantes segundo o IBGE. A renda per capita é de 1.546 reais em 2025 e o estado ocupa a 24ª posição entre os 27 no índice de desenvolvimento humano, conforme o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA. “Algumas coisas melhoraram como as políticas públicas da reforma agrária que passou a ser direcionada para as mulheres, financiamentos para elas. Existe muita desigualdade ao acesso à educação nas comunidades rurais, ainda é muito precário”, explica a doutora que escreveu sua tese de doutorado “Controle Social Democrático: uma estratégia metodológica de luta anticorrupção pelos caminhos da democracia direta”, que virou livro em 2022 pela editora Dialética.
Sobre que exemplo deixar de inspiração para outras mulheres, Teresa enfatiza: “precisamos nos valorizar mais, valorizar nossa capacidade de exercício de cidadania, eleger pessoas que não menosprezem as mulheres. Temos que eleger mais mulheres, colocá-las como protagonistas. Devemos lutar pela nossa igualdade, não baixar a cabeça e mostrar que nós somos capazes e atuar na sociedade pensando no bem comum”.
ASCOM FTP/ Vanderson de Paulo.